Quando a Religião Serve ao Controle Masculino

Quando a Religião Serve ao Controle Masculino

Quando a Religião Serve ao Controle Masculino

Nos grupos reflexivos para homens autores de violência doméstica, o discurso raramente começa pela admissão do erro. Frequentemente, navega-se por justificativas que buscam legitimar o ato agressivo. Dos diversos relatos que temos associados às questões religiosas, um relato desses atendimentos demonstrou como o imaginário religioso pode ser cooptado para mascarar a dinâmica de poder e controle. Nesse sentido, em um dos grupos reflexivos observou-se o seguinte relato:

 

“Eu e minha esposa estávamos prestes a casar no cartório, só que dias antes ela mudou muito o comportamento e um dado dia parece que ela se transformou, acabou que tivemos uma briga, ela parecia outro ser. Eu acredito que fizeram um trabalho de macumba para acabar com meu relacionamento.”

 

Este relato é uma chave hermenêutica para entendermos como Mitos, Gestão de Conduta e Preconceito Religioso se entrelaçam para sustentar a violência contra a mulher.

 

 O Mito como Esconderijo do Medo.

Lopes (2013) é cirúrgica ao afirmar que “Mitos e tabus servem para justificar a dominação e esconder o medo”.

No caso citado, o homem recorre ao mito do “feitiço” ou da “mulher possuída” para explicar um conflito conjugal. Ao dizer que a esposa “parecia outro ser” ou que “mudou o comportamento”, reflete incapacidade de lidar com a autonomia da parceira. Para o pensamento patriarcal, a recusa ou a mudança da mulher é inadmissível. Surge, então, o medo da perda de controle. Para não admitir que a relação falhou por questões humanas ou por sua própria conduta, o homem cria um “inimigo espiritual”. As entrelinhas do relato no momento do grupo vão se evidenciando. 

A função do mito: Se foi “macumba”, ele não é um agressor, mas uma vítima de forças ocultas. O mito justifica a dominação física como uma suposta defesa espiritual, escondendo o medo de ser rejeitado ou contrariado.

 

A Universalidade da “Blindagem Espiritual”.

A reação dos outros membros do grupo reflexivo ao relato do agressor é notavelmente instrutiva.Participantes de diferentes matrizes de fé alinharam-se para uma mesma conclusão de que a violência não pode ser o resultado de forças externas se a pessoa está espiritualmente protegida.

Homens das religiões de Matriz Africana argumentaram que “macumba não pega em gente boa”. Sob a mesma lógica, homens evangélicos disseram que “Quando está firme com Deus, coisas ruins não atingem”.

 

Essa uniformidade de pensamento, apesar das diferenças teológicas, permite extrair verdades essenciais sobre a externalização da culpa:

 

Na Transferência de Responsabilidade, a crença da “blindagem espiritual” é o contraponto perfeito à justificativa do agressor. Se “coisas ruins não atingem” quem está firme com Deus/é gente boa, a implicação é clara: o homem ou é culpado, ou é fraco. Contudo, o agressor inverte essa lógica: ele prefere culpar a vítima dizendo que ela mudou ou foi atingida; ou o inimigo (o feitiço), jamais a si mesmo.

 

A Redução da Violência a questões morais ou místicas, sendo a violência doméstica um crime estrutural e comportamental, secular em assimetrias de poder e na hierarquia de gênero. Gebara (2008) argumenta que as religiões gerenciam as atividades humanas e passam a controlá-las. No momento em que a violência irrompe, o foco deveria ser a quebra do controle e a responsabilização legal e moral.

 

Ao culpar a “macumba”, o agressor reduz o ato criminoso a um problema místico.

Paralelamente, o grupo argumenta sobre “gente boa” versus “coisas ruins”, eles reduzem o problema a uma questão de moralidade ou firmeza na fé.

Em ambos os casos, a essência da violência, o ato deliberado de dominação e agressão física/psicológica é diluída. O foco se afasta da agressão e se concentra na “batalha espiritual”, o que é altamente funcional para a negação da culpa.

O Terreiro como Bode Expiatório e a Resistência Feminina

O Terreiro tratado como bode expiatório se dá no momento em que o termo “macumba”  é colocado pelo agressor, não é algo neutro. É um termo pejorativo que, no imaginário popular, se liga à desagregação e ao mal, reforçando o racismo religioso. O que o homem chama de “trabalho para acabar o relacionamento” pode ser, na verdade, a mulher exercendo sua autonomia e buscando força. Sobre essa busca, bell hooks (2025) observa com precisão: “Apesar do sexismo das religiões dominadas pelos homens, as mulheres encontraram em práticas espirituais um lugar de consolo e um santuário.”

Onde o agressor enxerga um “mal” a ser combatido, a mulher pode ter encontrado o suporte espiritual necessário para não mais se submeter. 

 

É importante ressaltar que a teologia de Orixás com arquétipos como Iansã e Oxum, mulheres fortes e guerreiras, dificilmente oferece base para justificar a submissão cega. A atribuição da culpa a essas religiões é uma tentativa de justificar a própria violência como uma reação necessária contra o “mal” que ameaça seu domínio.

 

O trabalho com os homens através dos grupos reflexivos da oportunidade de tentarmos desconstruir essas narrativas de fuga que são correlatas aos atos violentos. A reação do grupo, embora bem-intencionada, também mostra que a sociedade, em geral, têm dificuldade em encarar a violência como um problema de escolha e poder, preferindo vê-la como um desvio místico ou moral.

 

Ser violento não é o destino. É um ato humano. E a violência doméstica em grande parte, ato dos homens. Portanto o agressor é responsável por seus atos, independentemente de suas crenças, das crenças da vítima ou das forças que invoque.

 

A fé não pode ser álibi.

A blindagem espiritual, se existe, não livra o agressor de suas obrigações legais e éticas.

 

Como nos lembram Gebara e Lopes, enquanto o medo for escondido atrás de mitos, sejam eles a “Teologia da Submissão” ou o “feitiço”, a violência continuará buscando refúgio no sagrado. A justiça de gênero exige que a responsabilidade seja devolvida para onde sempre esteve: o agressor.

 

 

Referências Bibliográficas

GEBARA, Ivone. O que é Teologia Feminista. São Paulo: Brasiliense, 2008.

HOOKS, bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2025.
LOPES, Mercedes. Gênero e Discurso Religioso. Revista Relegens Thréskeia, Curitiba, nº 2, p. 60-70, 2013.
OLIVEIRA, Alesca Prado de; ENOQUE, Alessandro Gomes. Gênero e religião: um olhar sobre a pesquisa atual. Ciencias Sociales y Religión / Ciências Sociais e Religião, Campinas, v. 22, e020005, 2020. 

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